Desde o meu último relato, perdi a conta de quantos altos e baixos se passaram. Mas, complementando o que eu havia escrito sobre a estabilização do remédio, aparentemente as coisas não saíram bem como o esperado.
Nesse meio-tempo, passei por novas consultas com o gastroenterologista e o psiquiatra. Uma pausa aqui: Olhando agora, percebo o quanto tenho lutado para sobreviver e cuidar de mim. Com o gastro, definimos que ainda vale a pena insistir um pouco mais em uma alternativa clínica antes de partir para exames mais invasivos. Já o psiquiatra me trouxe um questionamento que não passava pela minha cabeça há meia década: se os 20mg de Citalopram faziam algum efeito positivo, mas não resolviam o isolamento e o medo, era sinal de que faltava aumentar a dosagem.
Isso realmente nunca tinha me ocorrido. Os 20mg pareciam o suficiente e, quando a ansiedade transbordava, eu recorria ao álcool ou ao Diazepam para conter os episódios mais agudos. Fico pensando: será que passei quase cinco anos me tratando de forma errada e, por isso, os sintomas voltaram tão avassaladores desta vez? Não tenho certeza. Só sei que decidi aceitar o ajuste para 30mg, mas antes eu precisava testar uma última teoria.
No dia 17 de julho, eu tinha uma viagem programada há meses. Apesar de me sentir ligeiramente melhor, os episódios de diarreia e de ansiedade constante continuavam ali. Cogitei desistir, mas mudei de ideia ao enxergar uma oportunidade de fazer um teste definitivo. Após mais de dois meses longe de qualquer gota de bebida, eu estaria em um ambiente tranquilo como Empuriabrava, cercado de amigos e de álcool disponível a qualquer hora. Era a chance de colocar à prova aquela velha tese: a de que, bebendo, recupero a coragem para ser quem eu quiser e a hipervigilância finalmente cede. E dito e feito.
Foram quase três dias de viagem que aproveitei ao máximo, me fazendo sentir mais vivo do que em todo o bimestre anterior. Sei que aquela minha versão sociável e leve ainda existe, mas é doloroso notar que ela só desperta quando apago os traumas através de uma substância que me prejudica. No entanto, não quis racionalizar isso enquanto estava lá; eu só queria me divertir e resgatar o sabor da vida.
Com o fim do passeio batendo à porta e a segunda-feira de trabalho se aproximando, tentei conter os excessos para evitar a ressaca no retorno ao expediente, um pouco falho já que caiu justo no dia em que a Espanha ganhou pela segunda vez a Copa do Mundo de Futebol. Mas depois disso, foi o momento de virar a chave outra vez: era hora de me afastar do álcool e iniciar formalmente os 30mg de Citalopram.
Hoje, quase duas semanas após o aumento da dose, já noto os primeiros indícios de melhora no pânico. Sinto mais fôlego para o cotidiano, mesmo que as saídas com amigos tenham sido discretas, e as crises intestinais estão diminuindo. O mais curioso, porém, é perceber que os meus questionamentos habituais começam a retomar o espaço na minha mente.
Passei mais de dois meses focado em um único roteiro de paranoia: "Será que vou ter dor de barriga aqui? E se eu passar vergonha de me sujar em público? Como sobreviver a esse vexame?". Agora que o pavor físico está recuando, os velhos fantasmas reaparecem: "E se eu voltar a engordar? Como está meu corpo? O que meu ex estará fazendo? Será que um dia serei correspondido?". É bizarro perceber que, por mais desgastantes que sejam essas inseguranças, elas são hábitos antigos e familiares. No fim das contas, de forma tortuosa, ainda prefiro lidar com eles do que com o pânico paralisante, embora saiba que ambos andam de mãos dadas.
Nesta terça-feira, tive mais um retorno com o psiquiatra. Enquanto avaliávamos a minha adaptação aos 30mg, ele me tranquilizou lembrando que, se essa dosagem não bastar, ainda podemos ajustar para 40mg. O importante é eu parar de prever o pior e deixar de alimentar essas vozes de autossabotagem. Se o fim — mesmo que seja apenas da vida social — tiver que vir, ele virá e eu nem estarei consciente para ver.
Há esperança, e eu escolho viver.