gustavo
07 November 2026 @ 09:55 am
​A minha cabeça começou a voltar ao normal nas últimas semanas. Como eu vinha reparando, aquele medo contínuo da próxima crise de ansiedade, do ataque de pânico, daquela dor de barriga insistente do intestino irritável — tudo isso que ocupava cem por cento do meu espaço mental — finalmente deu uma trégua porque eu estava ocupado demais sobrevivendo ao medo.

​Mas a recuperação tem essa pegadinha: quando a tempestade passa e o corpo para de gritar, o silêncio devolve aquele velho vazio que eu não conseguia preencher mesmo antes. E esse vazio diz muito sobre o fato de eu estar envelhecendo, de nunca ter tido sorte com um relacionamento, de querer me sentir desejado, de querer estar com alguém.

​Ao mesmo tempo, eu tenho me sentido melhor com o meu corpo por causa da perda de peso (causada pelo transtorno alimentar que veio pelas crises de SII). Querendo ou não, isso me ajuda a me ver melhor no espelho. E aí, como mencionei no texto anterior, fico me perguntando: será que eu devo voltar para os aplicativos? Mas logo me lembro que não é isso o que eu quero. Já foram tantos anos tentando por ali. Até rola um encontro ou outro, já surgiram coisas boas, mas esses aplicativos são uma verdadeira sinuca de bico — ou melhor, um cassino onde a gente fica viciado porque um dia tem recompensa e no outro não, e você fica sempre na espera de que, algum dia, vai vencer. E olha que isso não é nem achismo meu, são estudos psicológicos feitos sobre essas plataformas. Então eu prefiro não voltar pra esse buraco.

​Ainda assim, nos últimos dias, caindo na carência, eu voltei a baixar. E me arrependi amargamente. Já deletei tudo de novo, mas sei que em algum momento, na próxima onda de carência, vou acabar instalando de novo, porque eu quero ser visto, quero ser notado, e não tenho onde buscar outra fonte dessa validação no momento.

​Para piorar ou complicar o cenário, falta menos de um mês para eu viajar para Amsterdã junto com o boy italiano que conheci em 2024 (por um desses apps). Ele é bem mais novo do que eu, o que me faz pensar que eu já devia ter passado dessa fase de garotos mais novos, que eu já devia estar me relacionando com gente da minha idade. E relacionamento real, não essas pessoas de momentos. Só que eu também não sei por onde começar.

​Mas aí vem uma pausa dramática, porque tem coisas estranhas acontecendo que remetem a vários períodos da minha vida.

​Talvez eu já tenha dito isso de alguma forma: como o gay que eu sou, crescido em cidade pequena, eu tive uma paixão platônica por muitos anos por um homem hétero. Com o passar do tempo, eu entendi que essa paixão não era de todo o mal como eu pensava. Naquele momento, aquele Gustavo gay de cidade pequena, com medo de ser quem era, se agarrava na esperança de que algo fosse acontecer para poder seguir em frente. Aquele Gustavo se agarrou nesse platonismo. Foi positivo para sobreviver aquele período. ​Só que o problema é que eu já não sou mais aquele garoto de cidade pequena, mas continuo preso em padrões que me remetem à rejeição. E eu sei que é rejeição porque, no fundo, eu prefiro projetar algo em alguém impossível de conquistar do que em alguém que eu sei que talvez pudesse dar certo. Meu maior medo é que dê certo de verdade e a pessoa acabe descobrindo os meus lados feios: a minha ansiedade, as dores de barriga, as coisas nojentas como o cheiro do banheiro ou a flatulência. Coisas humanas, mas que eu morro de medo que descubram, e com quase 35 anos nas costas eu ainda não aprendi a lidar com isso de forma leve.

​Por que eu tô citando tudo isso? Porque recentemente entraram na minha equipe de trabalho dois meninos bem mais jovens. Nenhum dos dois é gay. Pelo menos que eu saiba, e não dão pinta nenhuma, então o que fica são as projeções que eu faço.

​E esses dois têm exatamente o padrão de quase todos os caras pelos quais eu me atraio: cabelo escuro e liso, pele branca, nariz mais endireitado, aparência jovial. Tudo aquilo que me ensinaram que era bonito quando eu era criança, enquanto me mostravam que tudo o que eu era, era feio e que eu tinha que ser como eles. Então eu vejo esses dois e me pergunto: será que é um crush ou será que eu apenas queria ser como eles? Será que envelhecer tá me fazendo projetar em quem é mais novo porque sinto que aquilo ali é o que eu perdi, ou o que eu poderia ter sido? Ou ainda: se eu conseguisse alguma coisa com um deles, será que isso me faria ser parte de algo que eu nunca fui? No fundo, já sei a resposta.

​Essa semana eu tive sonhos constantes com o N, que é o mais novo dos dois (tem 21 anos). Ele tem um jeito de menino criado em apartamento, filhinho de papai, se veste bem. E tem coisas que eu veria como defeito — eu nunca gostei acne, e ele tem marcas no rosto —, mas eu acho isso bonito nele. O que mais me pega é o cabelo liso, escuro, e o porte de homem. Isso confunde a minha cabeça. Eu tenho certeza absoluta de uma coisa: eu não quero voltar a ser o gay interiorano de 2005 projetando em hétero a solução para o meu vazio. E por isso não quero usar o N como um step para esse momento de carência.

​Eu preferiria fazer isso com outro cara gay, onde ao menos haveria alguma chance. Mas nem isso. Teve um menino na academia que eu acho lindo, que é gay, e eu vi ele nos aplicativos essas semanas. Tentei um contato com um perfil sem foto, dizendo que achava ele bonito mas que não mostrava o rosto por medo de ser rejeitado. Ele foi educado, agradeceu o elogio, mas nem respondeu depois disso. E eu também não insisti, porque não faz sentido alimentar algo que não vai a lugar nenhum. Só é  bonito quando existe a probabilidade de rejeição.

​Ainda assim, é estranho. Acordar sabendo que vou no escritório e vou ver o N — que é meio galã, mas timidez pura — mexe comigo. E eu acabei nem falando do outro, o P.

​O P é o outro new joiner. Ele tem 24 anos e é muito fofo, um hétero desconstruído que me dá beijinho no rosto quando se despede, o que eu acho maravilhoso. A gente já sentou para beber, ele fala de videogame comigo, parece não se importar com as amarras tradicionais: lê livros complexos, me dá abraços, hoje mesmo estava deitado tirando um cochilo no sofá da empresa com a inocência de quem não liga pra julgamentos. Ele quebra totalmente aquela minha ideia antiga de que "homem hétero tem que se comportar assim ou assado". Fico feliz de ver que essa nova geração existe e quebra esses padrões.

​No fim das contas, eu não gosto dessa sensação de estar olhando para dois caras héteros e para coisas que eu sei que não vou atingir. Eu odeio me sentir rejeitado, por mais que eu mesmo me coloque nesse lugar.

​Mas olhando para o todo, falta pouco mais de um mês para a minha viagem com o boy italiano. A melhor coisa que eu faria agora era parar de tentar me aproximar de quem não é acessível e parar de gastar minha energia mental correndo atrás de carência em aplicativo ou implorando atenção implícita de novos colegas de trabalho. Até lá, eu posso focar em deixar a cabeça desacelerar para curtir a viagem de verdade, sem estar esgotado emocionalmente nessa minha rodinha de hamster.

​Tudo isso parece meio confuso, mas no fundo eu tô feliz. Porque, de alguma forma, eu tô voltando a sentir outras coisas depois de meses em que o meu único sentimento era o medo e a aflição da próxima dor de barriga. Se essa confusão é o preço de estar vivo e sentindo de novo, que seja. É isso por hoje.
 
 
gustavo
01 November 2026 @ 10:55 am
Já faz algum tempo que eu devia ter voltado aqui para escrever alguma atualização sobre como vai o meu processo de recuperação, mas eu precisava primeiro sintetizar tudo o que vem ocorrendo. Porque sim, internamente tem muita coisa passando por esta cabeça e este corpo.

​A medicação, de fato, tem ajudado bastante. Os 30 mg de Citalopram não só diminuíram as crises de ansiedade, como também me deram a vida de volta. Voltei a sair de casa, a ter contato social e a fazer planos. Porém, ainda não consigo deixar de ir ao banheiro várias vezes ao dia como eu pensava que conseguiria. Tampouco desapareceu o medo de uma crise de diarreia acontecer do nada. No entanto, sinto que o processo tem sido gradual: há um mês, eu ainda me desesperava ao entrar no metrô; agora, já sinto que o medo só vem forte às segundas-feiras.

​Devido às crises e ao medo de evacuar tudo o que comia, acabei desenvolvendo um transtorno alimentar e perdi 11 kg no processo. Contudo, venho gradativamente adicionando alimentos ao meu cardápio e tentando ser o mais saudável possível para não recuperar toda a gordura. Por um lado, há muito tempo eu não me sentia tão satisfeito com meu corpo como agora, e até o ódio pela barriga diminuiu. Quero tentar me manter assim.

​Com o fim do excesso de preocupação em saber se vou ter um banheiro por perto, voltam a aparecer preocupações que estavam adormecidas nos últimos meses, como a necessidade de me relacionar com alguém de novo. E, com isso, velhos hábitos retornam: voltei a usar mais as redes sociais que havia abandonado, ainda que em escala muito menor do que antigamente. Voltei a abrir aplicativos de relacionamento e confesso que me sinto um ex-viciado em jogos de azar, mas ainda torcendo para que, nesse "jogo do bicho", o meu número seja sorteado. O medo real, no entanto, é que isso volte a afetar a minha autoestima, que — como citei ao falar da minha barriga — parece florescer quando eu não preciso me importar com a opinião alheia.

​Creio que, por fim, outro velho hábito que ressurgiu foi o de preencher o vazio com consumismo. Comprei um novo celular, gastei uma nota preta e sei que não havia necessidade alguma, além de buscar a sensação de que posso adquirir algo. Mas está bom, né? Eu trabalho para isso. Ainda assim, sinto que deveria ter investido esse dinheiro em uma viagem para o Brasil para ver minha família, algo que tem estado muito presente em meus sonhos.

​Por falar em viagem, ainda não voltei a enfrentar o meu medo de aeroportos. Tive férias em dois momentos durante esses meses e foi estranho não viajar; passei mais de dez dias em casa e sinto que isso não me agregou muito. Por outro lado, sei que, mesmo antes dessas crises ininterruptas deste ano, eu já passava mal toda vez que precisava ir a um aeroporto. Quis evitar o desgaste emocional enquanto ainda me recupero do que nem compreendi direito como aconteceu. De uma forma ou de outra, porém, vou ter que enfrentar um aeroporto em dezembro: tenho uma viagem marcada para Amsterdã, e essa promete fortes emoções, porque irei acompanhado. Vou acreditar que estarei melhor até lá, e essa será a minha verdadeira ressurreição no mês do meu aniversário.

​Por enquanto, vou vivendo um dia após o outro, com meus remédios que me permitem manter a cabeça distante do colapso.
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gustavo
31 July 2026 @ 02:08 pm
30mg  

Desde o meu último relato, perdi a conta de quantos altos e baixos se passaram. Mas, complementando o que eu havia escrito sobre a estabilização do remédio, aparentemente as coisas não saíram bem como o esperado.

Nesse meio-tempo, passei por novas consultas com o gastroenterologista e o psiquiatra. Uma pausa aqui: Olhando agora, percebo o quanto tenho lutado para sobreviver e cuidar de mim. Com o gastro, definimos que ainda vale a pena insistir um pouco mais em uma alternativa clínica antes de partir para exames mais invasivos. Já o psiquiatra me trouxe um questionamento que não passava pela minha cabeça há meia década: se os 20mg de Citalopram faziam algum efeito positivo, mas não resolviam o isolamento e o medo, era sinal de que faltava aumentar a dosagem.

Isso realmente nunca tinha me ocorrido. Os 20mg pareciam o suficiente e, quando a ansiedade transbordava, eu recorria ao álcool ou ao Diazepam para conter os episódios mais agudos. Fico pensando: será que passei quase cinco anos me tratando de forma errada e, por isso, os sintomas voltaram tão avassaladores desta vez? Não tenho certeza. Só sei que decidi aceitar o ajuste para 30mg, mas antes eu precisava testar uma última teoria.

No dia 17 de julho, eu tinha uma viagem programada há meses. Apesar de me sentir ligeiramente melhor, os episódios de diarreia e de ansiedade constante continuavam ali. Cogitei desistir, mas mudei de ideia ao enxergar uma oportunidade de fazer um teste definitivo. Após mais de dois meses longe de qualquer gota de bebida, eu estaria em um ambiente tranquilo como Empuriabrava, cercado de amigos e de álcool disponível a qualquer hora. Era a chance de colocar à prova aquela velha tese: a de que, bebendo, recupero a coragem para ser quem eu quiser e a hipervigilância finalmente cede. E dito e feito.

Foram quase três dias de viagem que aproveitei ao máximo, me fazendo sentir mais vivo do que em todo o bimestre anterior. Sei que aquela minha versão sociável e leve ainda existe, mas é doloroso notar que ela só desperta quando apago os traumas através de uma substância que me prejudica. No entanto, não quis racionalizar isso enquanto estava lá; eu só queria me divertir e resgatar o sabor da vida.

Com o fim do passeio batendo à porta e a segunda-feira de trabalho se aproximando, tentei conter os excessos para evitar a ressaca no retorno ao expediente, um pouco falho já que caiu justo no dia em que a Espanha ganhou pela segunda vez a Copa do Mundo de Futebol. Mas depois disso, foi o momento de virar a chave outra vez: era hora de me afastar do álcool e iniciar formalmente os 30mg de Citalopram.

Hoje, quase duas semanas após o aumento da dose, já noto os primeiros indícios de melhora no pânico. Sinto mais fôlego para o cotidiano, mesmo que as saídas com amigos tenham sido discretas, e as crises intestinais estão diminuindo. O mais curioso, porém, é perceber que os meus questionamentos habituais começam a retomar o espaço na minha mente.

Passei mais de dois meses focado em um único roteiro de paranoia: "Será que vou ter dor de barriga aqui? E se eu passar vergonha de me sujar em público? Como sobreviver a esse vexame?". Agora que o pavor físico está recuando, os velhos fantasmas reaparecem: "E se eu voltar a engordar? Como está meu corpo? O que meu ex estará fazendo? Será que um dia serei correspondido?". É bizarro perceber que, por mais desgastantes que sejam essas inseguranças, elas são hábitos antigos e familiares. No fim das contas, de forma tortuosa, ainda prefiro lidar com eles do que com o pânico paralisante, embora saiba que ambos andam de mãos dadas.

Nesta terça-feira, tive mais um retorno com o psiquiatra. Enquanto avaliávamos a minha adaptação aos 30mg, ele me tranquilizou lembrando que, se essa dosagem não bastar, ainda podemos ajustar para 40mg. O importante é eu parar de prever o pior e deixar de alimentar essas vozes de autossabotagem. Se o fim — mesmo que seja apenas da vida social — tiver que vir, ele virá e eu nem estarei consciente para ver.

Há esperança, e eu escolho viver.

 
 
mood: hopeful
 
 
gustavo
05 July 2026 @ 10:32 pm
40º dia de Citalopram, mais uma vez. Quase dois meses desde que meu corpo entrou em colapso, e até hoje não entendo o real motivo. Talvez eu nunca entenda.

Já são quase seis semanas sem comer direito, desenvolvendo um certo distúrbio alimentar. Perdi peso. É ótimo olhar no espelho e ver a barriga menor, mas, ao mesmo tempo, reflito que talvez eu preferisse continuar no dilema de odiá-la, desde que estivesse aproveitando a vida como antes, sem carregar o fardo de dores abdominais o dia inteiro. É uma relação complexa: em um momento olho pra minha 'pancinha' e a rejeito, mas sei que ela representa a liberdade de viver. No outro, fico satisfeito com a minha aparência atual, mas arcando com o preço de não conseguir agir como uma pessoa comum. Eu sei que prefiro a primeira alternativa.

Aliás, nesses meus devaneios, venho pensando: o que é ser comum? O que é a normalidade?

Tentei por tantas vezes me encaixar nesse conceito. Escrevi inumeras vezes sobre isso: o quanto eu queria pertencer, ser aceito, não ter crescido com o medo constante da rejeição. Por esse motivo, passei a vida (e ainda passo) correndo atrás de conhecimento que me faça evoluir e entender que não preciso de tanta aprovação. Só que aí surge a minha hipervigilância, essa necessidade de controle que simplesmente não sai de mim. Nessas horas, penso que o melhor seria tolerar a loucura da minha própria existência e desistir dessa busca pelo padrão. Porém, nem isso eu consigo.

Estou com saudades de ficar "louco". Fora de mim. De desligar essa engrenagem que está sempre ligada na minha cabeça. Sentir, nem que seja por um instante, que não preciso ter medo ou vergonha. Álcool, LSD, maconha...?

Ontem, conversando com a minha irmã ao telefone, comentávamos sobre conhecidos que agora enfrentam problemas com drogas — ainda que nós dois tenhamos um exemplo disso desde que nascemos, que é o nosso pai. Disse a ela algo que venho percebendo, uma constatação meio triste e desoladora, mas que todo mundo ignora para manter as aparências: "Ninguém está bem". E realmente, quanto mais olho em volta e conheço as pessoas com quem convivo, mais percebo que está todo mundo enfrentando uma batalha psicológica profunda.

Não quero despejar os meus problemas em quem já está vulnerável, nem dizer que os meus surtos são piores que os de ninguém. Mas isso me faz pensar que, de certa forma, estou sendo forte ao tentar me tratar com lucidez. Por outro lado, também vejo como o caminho mais fácil para encarar tudo isso é a autodestruição, como meu pai fez e como algumas das pessoas sobre as quais conversávamos vêm fazendo.

Quando ando pelas ruas, observo quem está morando ali. Sei que grande parte caiu nessa situação pelo uso de substâncias, outros por transtornos mentais, e alguns simplesmente por falta de dinheiro. E isso me dispara o gatilho de que preciso trabalhar loucamente para guardar uma reserva enquanto tento cuidar da minha mente, para nunca chegar a esse ponto. É um temor que creio que muita gente sinta, mas que poucos têm coragem de verbalizar. Senti que precisava relatar isso aqui. E talvez esse medo seja uma das razões pelas quais eu tenha que ir ao escritório amanhã: para vestir a máscara, fingir que estou melhorando e que vai dar tudo certo. Essa é a suposta normalidade da vida.

Dizem que o Citalopram começa a estabilizar de verdade na sexta semana. Estou quase lá. Enquanto tudo ao redor parece instável, é hora de dormir. Amanhã começa um novo ciclo, e eu prometo para o meu eu de agora que as coisas vão se ajeitar. Mesmo que o resultado final não seja tão normal assim.
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mood: apathetic
 
 
gustavo
13 June 2026 @ 02:52 pm

Ainda estou aqui, justamente no estágio onde mais odeio estar. Aquele em que os pensamentos sem sentido continuam dominando a minha mente e onde, mais uma vez, perdi o controle do meu próprio corpo. Sigo tomando o antidepressivo e sinto alguma melhora nos sintomas físicos, mas a cabeça não para de remoer: como foi que eu vim parar nesse mesmo lugar de novo?

Eu acreditava que evoluir, diminuir o vício em dopamina rápida, reduzir o sexo e os encontros usados como moeda de troca por validação surtiriam efeito. Achei que evitar redes sociais desenhadas para brincar com meus desejos e focar em inteligência emocional me trariam a estabilidade que eu tanto buscava para viver bem. Mas pelo visto, o buraco era mais embaixo.

A vida inteira fui hipervigilante, e talvez esse processo tenha me tornado ainda mais obcecado por gerenciar tudo. Afinal, eu não queria apenas entender e mitigar o que me feria; eu queria dominar meus sentimentos. Ainda quero. Queria ser imune à rejeição e ao sofrimento. Para isso, tentei decifrar cada um dos meus padrões e reduzir ao máximo a exposição à dor. O preço disso foi ter que policiar cada passo que eu dava.

Em 2015, eu já deixava clara essa minha fixação pelo controle, e as coisas não mudaram muito de lá para cá, mesmo que hoje eu saiba muito mais sobre os meus gatilhos. É difícil mudar. É difícil deixar de ser aquilo que se transformou na minha própria essência: alguém constantemente em alerta. Um hipervigilante.

Crescer em uma cidade pequena, dentro de um lar instável marcado pelo abandono, somado à culpa católica e a uma sexualidade vista como proibida, me ensinou desde cedo a mapear tudo ao redor.

Eu calibrava o tempo todo o que pensavam de mim, das minhas roupas ou das minhas companhias. Previa se meus pais começariam uma briga do nada, transformando a casa em um vulcão em erupção, ou se um deles desapareceria no fim de semana, entregue a algum vício. Vivia tentando garantir que a minha orientação — que ainda não é algo tão aceito em muitos lugares — não vazasse e destruísse minhas amizades ou laços familiares. Eu sabia que, se descobrissem quem eu era, especialmente no auge da minha adolescência, o isolamento e a rejeição seriam certos. Sem maturidade para lidar com esse peso, fui sufocando tudo aqui dentro.

Era um estado de alerta ininterrupto. Eu precisava decifrar o ambiente antes mesmo de pisar nele, calculando até que ponto a minha presença e a minha verdade incomodariam os outros. Eu precisei me diminuir para caber.

Treinei meu cérebro (e, consequentemente, meu intestino) de que o controle era vital. Sair da linha significava ser visto como a personificação do nojo por quem me cercava, e eu não suportaria ser esse rejeitado. Por anos sofri de constipação. Ao perder o controle, sofro com a diarreia. E eu passei a ser a personificação do que entendia como nojento.

Anos de terapia depois, acumulando crises de ansiedade e a síndrome do intestino irritável... cá estamos. É 2026, e de tanto tentar segurar as rédeas, colapsei novamente. Meu corpo parou de obedecer à mente; ele só enxerga perigo. Sente o medo de que meu intestino entre em pânico e me exponha outra vez à humilhação do julgamento alheio. O cérebro capta esse alerta e o pânico se instala.

É horrível conhecer o roteiro, saber a causa, a origem, e mesmo assim não conseguir frear o processo.

Mas não deixa de ser um caminho. Tem dias em que a vontade é de desistir, porque parece uma história sem fim. Uma única certeza de que sempre voltarei a essa estaca zero de desabar aleatoriamente em algum lugar, afinal não dá para fugir de si mesmo. Ainda assim, tenho seguido com o tratamento, medicado, vivendo um dia de cada vez. Equilibrando a angústia, a fadiga e a raiva com um resto de esperança de que as coisas finalmente mudem.

Se eu pudesse resumir este capítulo da minha vida em uma palavra, seria Hipervigilância. Mas diante disso, como desatar um nó que sempre esteve aqui? Para onde vai quem eu sou se eu parar de policiar o mundo? Sobra apenas o Gustavo embriagado?

Talvez eu precise recomeçar a me conhecer do zero, mas confesso que nem sei por onde partir.

 
 
gustavo
31 May 2026 @ 03:15 pm
Para introduzir, eu queria resgatar um texto que postei em Setembro de 2014, exatamente quando minhas crises de pânico relacionadas à SII começaram de fato. Naquela época, eu nem sabia o que era a Síndrome do Intestino Irritável, mas conhecia muito bem o medo horroroso de passar pela humilhação de ter uma dor de barriga em público. Era um pavor tão grande de uma possível diarreia, de ficar sujo e virar motivo de zombaria, que a minha cabeça entendeu que a melhor saída era fugir: parei de sair de casa e desenvolvi um medo absurdo de locais fechados ou sem um banheiro limpo por perto. Com a ajuda da terapia, medicação, tempo e muita paciência, acabei vencendo esses sintomas na época. Mas isso não significa que eles sumiram para sempre. Eles diminuíram gradualmente, mas continuaram ali, à espreita. As crises voltaram a se intensificar em 2016, depois em 2021... e agora, em 2026, novamente.

Se das outras vezes eu conseguia rastrear as razões que me levaram ao colapso, desta vez estou dando voltas na minha própria cabeça tentando entender o motivo. Como escrevi no post anterior, eu já vinha há alguns dias submerso em uma tristeza sem explicação, que talvez estivesse ligada à fadiga de tentar sempre melhorar e sentir que isso não me levava a um lugar concreto. Mas aí, numa bela segunda-feira, a caminho do trabalho, a dor voltou. E veio forte, acompanhada de uma intensa sensação de desmaio. O susto foi enorme. Eu estava dentro do metrô e, a cada parada, rezava para conseguir chegar ao destino sem precisar sair correndo, sem nem saber para onde ir. O intestino torcia de dor e a mente decretava que eu estava prestes a viver o momento mais constrangedor da minha vida. Só que, por já conhecer o roteiro, eu sabia que, por mais real que fosse a dor física, o medo ao redor dela era surreal. E eu fiquei. Eu enfrentei. Cheguei ao meu trabalho e consegui falar com as pessoas sobre o que estava sentindo e pensei: "Bom, eu já não sou mais o Gustavo de 2014, porque agora eu consigo verbalizar o que acontece". Doce ilusão.

As crises, que pareciam passageiras, foram se fixando no meu corpo pouco a pouco. Em questão de uma semana, me vi de volta ao ponto de não conseguir sair de casa sem antes enfrentar um ataque de pânico completo. E é exatamente aqui que me encontro agora.

Em janeiro deste ano, de tão confiante que eu estava com o meu momento, deixei o Citalopram após mais de quatro anos de tratamento. Tudo parecia caminhar bem: a terapia me ajudando a enxergar as engrenagens da minha vida, uma aparente estabilidade financeira, boa relação com a família e amigos... Mas nesse momento, precisei voltar para a medicação. Entendi que não estou forte o suficiente para sair desse breakdown sozinho.

Só que parece que só isso não tem sido bastante. Sinto que voltei para o fundo de um buraco que conheço bem, mas do qual esqueci como sair. Se por um lado a minha razão me diz que isso vai passar, por outro, cansa pensar que posso viver a vida inteira assim, refém do meu próprio corpo. É angustiante e assustador ter que enfrentar esse mesmo "lugar" mais uma vez.

Estou de atestado médico, inicialmente até amanhã. E isso me gera uma preocupação enorme, porque ainda não me sinto bem sequer para dar um passo fora de casa e fazer coisas simples como ir à academia, quem dirá pegar o transporte público e encarar a rotina de trabalho.

Quero acreditar que logo a medicação vai estabilizar e que poderei retomar uma vida "normal". Embora, sendo sincero, eu já nem saiba mais o que é o normal, já que aparentemente vivo em constante hipervigilância, numa batalha diária contra o meu próprio sistema interno.

Que os pensamentos positivos me cerquem. Que a vontade de viver volte para mim. Eu quero muito seguir em frente.

 
 
gustavo
12 May 2026 @ 03:13 pm
É estranho... ainda me sinto meio mal, com uma tristeza que não sei explicar direito, mesmo sabendo que as coisas na minha vida estão "ok" ou, pelo menos, onde eu planejei que estivessem. Talvez eu ainda esteja me cobrando demais em relação ao que considero estabilidade, tentando a todo custo não cair nas ciladas que me levavam aos padrões de sofrimento de antes. Aquele vício de buscar validação em quem não me quer e, logo em seguida, sofrer pela rejeição. Não é que eu esteja curado disso; eu só sigo evitando o comportamento enquanto tento me entender.

Às vezes, parece que estou vivendo um luto de mim mesmo. Abandonei tantas camadas que agora consigo olhar para trás, pensar no Gustavo criança e entender o porquê de muita coisa. É um processo de aceitar que o passado é imutável, enquanto sinto que ainda não consegui me tornar, de fato, uma nova versão.

E é aí que a falta de uma válvula de escape vira uma bola de neve. Quando a tristeza e a pressão batem, a vontade é correr atrás justamente daquilo que não posso ter. Como agora não me permito voltar para os aplicativos de encontro e também parei de gastar rios de dinheiro com eletrônicos para suprir o vazio, parece que as coisas perdem o sentido. Eu ainda não aprendi a ressignificar esses espaços vazios.

Talvez eu esteja apenas confuso. Quando olho para fora, não estou mal: tenho um trabalho que me paga o suficiente, consigo economizar e estou cuidando de mim. Tem dias que até aceito melhor minha biologia, entendendo que esse é o rosto e o corpo que eu tenho. E não é mais que eu queira ou acredite que alguém vai aparecer para me salvar; acho que a independência de morar sozinho e a consciência de escolher com quem me envolver me trariam muito mais paz do que um namoro por conveniência.

Não entendo bem esse estado atual, mas quero acreditar que vai passar logo. Quero voltar a ser aquele Gustavo feliz, animado e que realmente sente prazer nas coisas. Mas, no fundo, sei que não é necessariamente felicidade o que falta agora; é um pouco de vitalidade e alegria emocional.

Eram coisas que a Irlanda, os aplicativos e as paixões impossíveis me davam, mas eu também sei o preço que vem junto: ansiedade, idealização, compulsão, aquela busca incessante por validação e uma instabilidade profunda.

Preciso aprender a construir uma vida emocionalmente nutritiva sem depender da autodestruição suave que antes parecia prazer.

 
 
ouvindo: OVER - Lykke Li
mood: depressed