gustavo
31 July 2026 @ 02:08 pm
30mg  

Desde o meu último relato, perdi a conta de quantos altos e baixos se passaram. Mas, complementando o que eu havia escrito sobre a estabilização do remédio, aparentemente as coisas não saíram bem como o esperado.

Nesse meio-tempo, passei por novas consultas com o gastroenterologista e o psiquiatra. Uma pausa aqui: Olhando agora, percebo o quanto tenho lutado para sobreviver e cuidar de mim. Com o gastro, definimos que ainda vale a pena insistir um pouco mais em uma alternativa clínica antes de partir para exames mais invasivos. Já o psiquiatra me trouxe um questionamento que não passava pela minha cabeça há meia década: se os 20mg de Citalopram faziam algum efeito positivo, mas não resolviam o isolamento e o medo, era sinal de que faltava aumentar a dosagem.

Isso realmente nunca tinha me ocorrido. Os 20mg pareciam o suficiente e, quando a ansiedade transbordava, eu recorria ao álcool ou ao Diazepam para conter os episódios mais agudos. Fico pensando: será que passei quase cinco anos me tratando de forma errada e, por isso, os sintomas voltaram tão avassaladores desta vez? Não tenho certeza. Só sei que decidi aceitar o ajuste para 30mg, mas antes eu precisava testar uma última teoria.

No dia 17 de julho, eu tinha uma viagem programada há meses. Apesar de me sentir ligeiramente melhor, os episódios de diarreia e de ansiedade constante continuavam ali. Cogitei desistir, mas mudei de ideia ao enxergar uma oportunidade de fazer um teste definitivo. Após mais de dois meses longe de qualquer gota de bebida, eu estaria em um ambiente tranquilo como Empuriabrava, cercado de amigos e de álcool disponível a qualquer hora. Era a chance de colocar à prova aquela velha tese: a de que, bebendo, recupero a coragem para ser quem eu quiser e a hipervigilância finalmente cede. E dito e feito.

Foram quase três dias de viagem que aproveitei ao máximo, me fazendo sentir mais vivo do que em todo o bimestre anterior. Sei que aquela minha versão sociável e leve ainda existe, mas é doloroso notar que ela só desperta quando apago os traumas através de uma substância que me prejudica. No entanto, não quis racionalizar isso enquanto estava lá; eu só queria me divertir e resgatar o sabor da vida.

Com o fim do passeio batendo à porta e a segunda-feira de trabalho se aproximando, tentei conter os excessos para evitar a ressaca no retorno ao expediente, um pouco falho já que caiu justo no dia em que a Espanha ganhou pela segunda vez a Copa do Mundo de Futebol. Mas depois disso, foi o momento de virar a chave outra vez: era hora de me afastar do álcool e iniciar formalmente os 30mg de Citalopram.

Hoje, quase duas semanas após o aumento da dose, já noto os primeiros indícios de melhora no pânico. Sinto mais fôlego para o cotidiano, mesmo que as saídas com amigos tenham sido discretas, e as crises intestinais estão diminuindo. O mais curioso, porém, é perceber que os meus questionamentos habituais começam a retomar o espaço na minha mente.

Passei mais de dois meses focado em um único roteiro de paranoia: "Será que vou ter dor de barriga aqui? E se eu passar vergonha de me sujar em público? Como sobreviver a esse vexame?". Agora que o pavor físico está recuando, os velhos fantasmas reaparecem: "E se eu voltar a engordar? Como está meu corpo? O que meu ex estará fazendo? Será que um dia serei correspondido?". É bizarro perceber que, por mais desgastantes que sejam essas inseguranças, elas são hábitos antigos e familiares. No fim das contas, de forma tortuosa, ainda prefiro lidar com eles do que com o pânico paralisante, embora saiba que ambos andam de mãos dadas.

Nesta terça-feira, tive mais um retorno com o psiquiatra. Enquanto avaliávamos a minha adaptação aos 30mg, ele me tranquilizou lembrando que, se essa dosagem não bastar, ainda podemos ajustar para 40mg. O importante é eu parar de prever o pior e deixar de alimentar essas vozes de autossabotagem. Se o fim — mesmo que seja apenas da vida social — tiver que vir, ele virá e eu nem estarei consciente para ver.

Há esperança, e eu escolho viver.

 
 
mood: hopeful
 
 
gustavo
05 July 2026 @ 10:32 pm
40º dia de Citalopram, mais uma vez. Quase dois meses desde que meu corpo entrou em colapso, e até hoje não entendo o real motivo. Talvez eu nunca entenda.

Já são quase seis semanas sem comer direito, desenvolvendo um certo distúrbio alimentar. Perdi peso. É ótimo olhar no espelho e ver a barriga menor, mas, ao mesmo tempo, reflito que talvez eu preferisse continuar no dilema de odiá-la, desde que estivesse aproveitando a vida como antes, sem carregar o fardo de dores abdominais o dia inteiro. É uma relação complexa: em um momento olho pra minha 'pancinha' e a rejeito, mas sei que ela representa a liberdade de viver. No outro, fico satisfeito com a minha aparência atual, mas arcando com o preço de não conseguir agir como uma pessoa comum. Eu sei que prefiro a primeira alternativa.

Aliás, nesses meus devaneios, venho pensando: o que é ser comum? O que é a normalidade?

Tentei por tantas vezes me encaixar nesse conceito. Escrevi inumeras vezes sobre isso: o quanto eu queria pertencer, ser aceito, não ter crescido com o medo constante da rejeição. Por esse motivo, passei a vida (e ainda passo) correndo atrás de conhecimento que me faça evoluir e entender que não preciso de tanta aprovação. Só que aí surge a minha hipervigilância, essa necessidade de controle que simplesmente não sai de mim. Nessas horas, penso que o melhor seria tolerar a loucura da minha própria existência e desistir dessa busca pelo padrão. Porém, nem isso eu consigo.

Estou com saudades de ficar "louco". Fora de mim. De desligar essa engrenagem que está sempre ligada na minha cabeça. Sentir, nem que seja por um instante, que não preciso ter medo ou vergonha. Álcool, LSD, maconha...?

Ontem, conversando com a minha irmã ao telefone, comentávamos sobre conhecidos que agora enfrentam problemas com drogas — ainda que nós dois tenhamos um exemplo disso desde que nascemos, que é o nosso pai. Disse a ela algo que venho percebendo, uma constatação meio triste e desoladora, mas que todo mundo ignora para manter as aparências: "Ninguém está bem". E realmente, quanto mais olho em volta e conheço as pessoas com quem convivo, mais percebo que está todo mundo enfrentando uma batalha psicológica profunda.

Não quero despejar os meus problemas em quem já está vulnerável, nem dizer que os meus surtos são piores que os de ninguém. Mas isso me faz pensar que, de certa forma, estou sendo forte ao tentar me tratar com lucidez. Por outro lado, também vejo como o caminho mais fácil para encarar tudo isso é a autodestruição, como meu pai fez e como algumas das pessoas sobre as quais conversávamos vêm fazendo.

Quando ando pelas ruas, observo quem está morando ali. Sei que grande parte caiu nessa situação pelo uso de substâncias, outros por transtornos mentais, e alguns simplesmente por falta de dinheiro. E isso me dispara o gatilho de que preciso trabalhar loucamente para guardar uma reserva enquanto tento cuidar da minha mente, para nunca chegar a esse ponto. É um temor que creio que muita gente sinta, mas que poucos têm coragem de verbalizar. Senti que precisava relatar isso aqui. E talvez esse medo seja uma das razões pelas quais eu tenha que ir ao escritório amanhã: para vestir a máscara, fingir que estou melhorando e que vai dar tudo certo. Essa é a suposta normalidade da vida.

Dizem que o Citalopram começa a estabilizar de verdade na sexta semana. Estou quase lá. Enquanto tudo ao redor parece instável, é hora de dormir. Amanhã começa um novo ciclo, e eu prometo para o meu eu de agora que as coisas vão se ajeitar. Mesmo que o resultado final não seja tão normal assim.
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mood: apathetic
 
 
gustavo
13 June 2026 @ 02:52 pm

Ainda estou aqui, justamente no estágio onde mais odeio estar. Aquele em que os pensamentos sem sentido continuam dominando a minha mente e onde, mais uma vez, perdi o controle do meu próprio corpo. Sigo tomando o antidepressivo e sinto alguma melhora nos sintomas físicos, mas a cabeça não para de remoer: como foi que eu vim parar nesse mesmo lugar de novo?

Eu acreditava que evoluir, diminuir o vício em dopamina rápida, reduzir o sexo e os encontros usados como moeda de troca por validação surtiriam efeito. Achei que evitar redes sociais desenhadas para brincar com meus desejos e focar em inteligência emocional me trariam a estabilidade que eu tanto buscava para viver bem. Mas pelo visto, o buraco era mais embaixo.

A vida inteira fui hipervigilante, e talvez esse processo tenha me tornado ainda mais obcecado por gerenciar tudo. Afinal, eu não queria apenas entender e mitigar o que me feria; eu queria dominar meus sentimentos. Ainda quero. Queria ser imune à rejeição e ao sofrimento. Para isso, tentei decifrar cada um dos meus padrões e reduzir ao máximo a exposição à dor. O preço disso foi ter que policiar cada passo que eu dava.

Em 2015, eu já deixava clara essa minha fixação pelo controle, e as coisas não mudaram muito de lá para cá, mesmo que hoje eu saiba muito mais sobre os meus gatilhos. É difícil mudar. É difícil deixar de ser aquilo que se transformou na minha própria essência: alguém constantemente em alerta. Um hipervigilante.

Crescer em uma cidade pequena, dentro de um lar instável marcado pelo abandono, somado à culpa católica e a uma sexualidade vista como proibida, me ensinou desde cedo a mapear tudo ao redor.

Eu calibrava o tempo todo o que pensavam de mim, das minhas roupas ou das minhas companhias. Previa se meus pais começariam uma briga do nada, transformando a casa em um vulcão em erupção, ou se um deles desapareceria no fim de semana, entregue a algum vício. Vivia tentando garantir que a minha orientação — que ainda não é algo tão aceito em muitos lugares — não vazasse e destruísse minhas amizades ou laços familiares. Eu sabia que, se descobrissem quem eu era, especialmente no auge da minha adolescência, o isolamento e a rejeição seriam certos. Sem maturidade para lidar com esse peso, fui sufocando tudo aqui dentro.

Era um estado de alerta ininterrupto. Eu precisava decifrar o ambiente antes mesmo de pisar nele, calculando até que ponto a minha presença e a minha verdade incomodariam os outros. Eu precisei me diminuir para caber.

Treinei meu cérebro (e, consequentemente, meu intestino) de que o controle era vital. Sair da linha significava ser visto como a personificação do nojo por quem me cercava, e eu não suportaria ser esse rejeitado. Por anos sofri de constipação. Ao perder o controle, sofro com a diarreia. E eu passei a ser a personificação do que entendia como nojento.

Anos de terapia depois, acumulando crises de ansiedade e a síndrome do intestino irritável... cá estamos. É 2026, e de tanto tentar segurar as rédeas, colapsei novamente. Meu corpo parou de obedecer à mente; ele só enxerga perigo. Sente o medo de que meu intestino entre em pânico e me exponha outra vez à humilhação do julgamento alheio. O cérebro capta esse alerta e o pânico se instala.

É horrível conhecer o roteiro, saber a causa, a origem, e mesmo assim não conseguir frear o processo.

Mas não deixa de ser um caminho. Tem dias em que a vontade é de desistir, porque parece uma história sem fim. Uma única certeza de que sempre voltarei a essa estaca zero de desabar aleatoriamente em algum lugar, afinal não dá para fugir de si mesmo. Ainda assim, tenho seguido com o tratamento, medicado, vivendo um dia de cada vez. Equilibrando a angústia, a fadiga e a raiva com um resto de esperança de que as coisas finalmente mudem.

Se eu pudesse resumir este capítulo da minha vida em uma palavra, seria Hipervigilância. Mas diante disso, como desatar um nó que sempre esteve aqui? Para onde vai quem eu sou se eu parar de policiar o mundo? Sobra apenas o Gustavo embriagado?

Talvez eu precise recomeçar a me conhecer do zero, mas confesso que nem sei por onde partir.

 
 
gustavo
31 May 2026 @ 03:15 pm
Para introduzir, eu queria resgatar um texto que postei em Setembro de 2014, exatamente quando minhas crises de pânico relacionadas à SII começaram de fato. Naquela época, eu nem sabia o que era a Síndrome do Intestino Irritável, mas conhecia muito bem o medo horroroso de passar pela humilhação de ter uma dor de barriga em público. Era um pavor tão grande de uma possível diarreia, de ficar sujo e virar motivo de zombaria, que a minha cabeça entendeu que a melhor saída era fugir: parei de sair de casa e desenvolvi um medo absurdo de locais fechados ou sem um banheiro limpo por perto. Com a ajuda da terapia, medicação, tempo e muita paciência, acabei vencendo esses sintomas na época. Mas isso não significa que eles sumiram para sempre. Eles diminuíram gradualmente, mas continuaram ali, à espreita. As crises voltaram a se intensificar em 2016, depois em 2021... e agora, em 2026, novamente.

Se das outras vezes eu conseguia rastrear as razões que me levaram ao colapso, desta vez estou dando voltas na minha própria cabeça tentando entender o motivo. Como escrevi no post anterior, eu já vinha há alguns dias submerso em uma tristeza sem explicação, que talvez estivesse ligada à fadiga de tentar sempre melhorar e sentir que isso não me levava a um lugar concreto. Mas aí, numa bela segunda-feira, a caminho do trabalho, a dor voltou. E veio forte, acompanhada de uma intensa sensação de desmaio. O susto foi enorme. Eu estava dentro do metrô e, a cada parada, rezava para conseguir chegar ao destino sem precisar sair correndo, sem nem saber para onde ir. O intestino torcia de dor e a mente decretava que eu estava prestes a viver o momento mais constrangedor da minha vida. Só que, por já conhecer o roteiro, eu sabia que, por mais real que fosse a dor física, o medo ao redor dela era surreal. E eu fiquei. Eu enfrentei. Cheguei ao meu trabalho e consegui falar com as pessoas sobre o que estava sentindo e pensei: "Bom, eu já não sou mais o Gustavo de 2014, porque agora eu consigo verbalizar o que acontece". Doce ilusão.

As crises, que pareciam passageiras, foram se fixando no meu corpo pouco a pouco. Em questão de uma semana, me vi de volta ao ponto de não conseguir sair de casa sem antes enfrentar um ataque de pânico completo. E é exatamente aqui que me encontro agora.

Em janeiro deste ano, de tão confiante que eu estava com o meu momento, deixei o Citalopram após mais de quatro anos de tratamento. Tudo parecia caminhar bem: a terapia me ajudando a enxergar as engrenagens da minha vida, uma aparente estabilidade financeira, boa relação com a família e amigos... Mas nesse momento, precisei voltar para a medicação. Entendi que não estou forte o suficiente para sair desse breakdown sozinho.

Só que parece que só isso não tem sido bastante. Sinto que voltei para o fundo de um buraco que conheço bem, mas do qual esqueci como sair. Se por um lado a minha razão me diz que isso vai passar, por outro, cansa pensar que posso viver a vida inteira assim, refém do meu próprio corpo. É angustiante e assustador ter que enfrentar esse mesmo "lugar" mais uma vez.

Estou de atestado médico, inicialmente até amanhã. E isso me gera uma preocupação enorme, porque ainda não me sinto bem sequer para dar um passo fora de casa e fazer coisas simples como ir à academia, quem dirá pegar o transporte público e encarar a rotina de trabalho.

Quero acreditar que logo a medicação vai estabilizar e que poderei retomar uma vida "normal". Embora, sendo sincero, eu já nem saiba mais o que é o normal, já que aparentemente vivo em constante hipervigilância, numa batalha diária contra o meu próprio sistema interno.

Que os pensamentos positivos me cerquem. Que a vontade de viver volte para mim. Eu quero muito seguir em frente.

 
 
gustavo
12 May 2026 @ 03:13 pm
É estranho... ainda me sinto meio mal, com uma tristeza que não sei explicar direito, mesmo sabendo que as coisas na minha vida estão "ok" ou, pelo menos, onde eu planejei que estivessem. Talvez eu ainda esteja me cobrando demais em relação ao que considero estabilidade, tentando a todo custo não cair nas ciladas que me levavam aos padrões de sofrimento de antes. Aquele vício de buscar validação em quem não me quer e, logo em seguida, sofrer pela rejeição. Não é que eu esteja curado disso; eu só sigo evitando o comportamento enquanto tento me entender.

Às vezes, parece que estou vivendo um luto de mim mesmo. Abandonei tantas camadas que agora consigo olhar para trás, pensar no Gustavo criança e entender o porquê de muita coisa. É um processo de aceitar que o passado é imutável, enquanto sinto que ainda não consegui me tornar, de fato, uma nova versão.

E é aí que a falta de uma válvula de escape vira uma bola de neve. Quando a tristeza e a pressão batem, a vontade é correr atrás justamente daquilo que não posso ter. Como agora não me permito voltar para os aplicativos de encontro e também parei de gastar rios de dinheiro com eletrônicos para suprir o vazio, parece que as coisas perdem o sentido. Eu ainda não aprendi a ressignificar esses espaços vazios.

Talvez eu esteja apenas confuso. Quando olho para fora, não estou mal: tenho um trabalho que me paga o suficiente, consigo economizar e estou cuidando de mim. Tem dias que até aceito melhor minha biologia, entendendo que esse é o rosto e o corpo que eu tenho. E não é mais que eu queira ou acredite que alguém vai aparecer para me salvar; acho que a independência de morar sozinho e a consciência de escolher com quem me envolver me trariam muito mais paz do que um namoro por conveniência.

Não entendo bem esse estado atual, mas quero acreditar que vai passar logo. Quero voltar a ser aquele Gustavo feliz, animado e que realmente sente prazer nas coisas. Mas, no fundo, sei que não é necessariamente felicidade o que falta agora; é um pouco de vitalidade e alegria emocional.

Eram coisas que a Irlanda, os aplicativos e as paixões impossíveis me davam, mas eu também sei o preço que vem junto: ansiedade, idealização, compulsão, aquela busca incessante por validação e uma instabilidade profunda.

Preciso aprender a construir uma vida emocionalmente nutritiva sem depender da autodestruição suave que antes parecia prazer.

 
 
ouvindo: OVER - Lykke Li
mood: depressed
 
 
gustavo
08 May 2026 @ 12:28 pm

É impressionante como é difícil desaprender padrões que carregamos por mais de 30 anos. São coisas que a gente absorve ao longo da vida e que, mesmo quando despertamos e tomamos consciência do que já não deveria estar aqui, a mente insiste em repetir. Tudo o que me foi ensinado, o certo e o errado, o que formou minha índole e moldou meu caráter... tudo isso construiu o muro onde me protejo. Muita coisa já não faz sentido hoje, mas para a minha cabeça, que foi treinada assim, a mudança é um processo lento e árduo.

Eu queria muito me permitir mais. Me permitir gastar sem o medo constante de que algo vai dar errado a qualquer segundo. Me permitir investir, tentar algo novo mesmo que a resposta seja um "não", ou até me sentir rejeitado sem que isso fosse o fim do mundo. Mas ainda não consigo. Sinto que dou um passo à frente e dois para trás. Minha mente ainda está obcecada por estabilidade; se algo está estável, deve continuar assim. Por isso, estou há mais de um ano evitando me relacionar, esperando o momento em que eu me sinta pronto para investir emocionalmente em alguém. No fundo, sei que dificilmente darei o primeiro passo, porque o risco de um fora destruiria meu castelo de areia. Não que eu seja o mesmo Gustavo de um ano atrás; eu me sinto muito mais forte agora, mas sinto que não quero mais esse esforço. Prefiro ser escolhido. Que venham até mim e me poupem da dor e do desgaste.

Nas últimas semanas, o cansaço bateu forte. Nesta em particular, ando meio para baixo, e com razão. Tenho me policiado demais e por muito tempo. Sigo controlando cada gasto em busca da meta de morar sozinho ou de construir aquela segurança financeira que ninguém nunca pôde me dar. Sigo malhando, correndo, subindo escadas, cuidando da pele... É uma guerra constante contra a minha própria aparência e a busca por uma versão melhor de mim mesmo. Ao mesmo tempo, venho reduzindo o vício em dopamina rápida — redes sociais e aplicativos de encontro —, e essa limitação acaba me fechando para o mundo. Se por um lado agora eu tenho o controle de quase tudo, por outro, sinto falta daquela reação química, da surpresa e da adrenalina que essas situações me traziam.

Isso me traz memórias da época na Irlanda e do porquê aquele tempo foi tão vital. Tudo era novo. Cada dia, cada interação e cada olhar tinham um gosto diferente. Eu era ingênuo, desbravando um país novo com uma cultura totalmente distinta, e tinha fome de aceitação, de fazer parte de algo. Eu sentia que qualquer coisa podia acontecer a qualquer momento, e talvez por isso eu quisesse tanto ter sobrevivido lá. Algumas pessoas e momentos daquele período ficaram marcados de forma profunda. Hoje, com a vida mais resolvida e com muito mais bagagem, não sinto mais esse êxtase em situações arriscadas, nem motivação para me desdobrar, mesmo exausto, atrás de alguém. Mas sinto muita saudade do que o Gustavo de 2019 sentia.

Eu achava que me descondicionar e alcançar estabilidade me deixaria mais leve, mas ainda não encontrei esse caminho. Por enquanto, sigo me organizando com um gosto agridoce na boca. Consigo olhar para as coisas ruins que passei e integrá-las com carinho, mas ainda não aprendi a me libertar para viver o prazer sem o peso da culpa. Talvez seja por isso que esta semana tenha doído tanto. Mas vai passar. Sempre passa.

 
 
mood: tired
 
 
gustavo
Em um momento feliz em Tenerife, Ilhas Canárias. Me sentindo no topo do mundo.


Quem diria que, após tantos meses de terapia e todos os esforços que tenho feito para me sentir melhor, tudo isso finalmente surtiria efeito?

Viagens sozinho, a reconexão com meu "eu" do passado (que carinhosamente chamo de Yami & Yugi) e a desativação do poder dos algoritmos sobre a minha vida... Agora, sim, consigo colher as recompensas. Com a ansiedade em baixa, a sensação de perigo constante diminui; sinto menos necessidade de ser aceito pelos outros e, às vezes, até me pego em chorinhos de felicidade ao pensar na minha trajetória.

E por falar nisso, ainda me lembro bem do Gustavo aos 15 anos (gustavoorochi), olhando para o horizonte e sonhando em um dia deixar a cidade onde nasceu porque temia não ser aceito. Olhe para mim agora, quase 20 anos depois, desbravando o mundo sozinho. Sinto um certo medo, sim, mas sigo visitando países onde muitos jamais pisariam sem companhia, vivendo momentos que não precisam ser compartilhados para serem validados.

É algo novo, que aquele Gustavo apenas ousava sonhar. Eu sempre achei que todos precisavam validar minha experiência para que ela parecesse real — talvez por querer provar que superei quem possivelmentre duvidaria de mim. Refleti que, nestes 34 anos, me reinventei várias vezes em lugares onde ninguém me conhecia. E, embora pudesse fazer isso de novo, já não sinto essa necessidade: o que vem de dentro hoje é mais recompensador que qualquer novo começo.





Este é um texto simples, talvez meio piegas, escrito de maneira despretensiosa. Só quero deixar registrado que, mesmo que em cinco minutos tudo mude, eu, Gustavo Assis, estou feliz pelo gustavoorochi de Inhapim, pelo 5gu de São Paulo e pelo cincogus que hoje vive na Europa. Aceito que não posso controlar tudo, acolho minhas versões com amor e me orgulho da minha história. ♥
 
 
ouvindo: Lotus Intro - Christina Aguilera
mood: relaxed