Mas a recuperação tem essa pegadinha: quando a tempestade passa e o corpo para de gritar, o silêncio devolve aquele velho vazio que eu não conseguia preencher mesmo antes. E esse vazio diz muito sobre o fato de eu estar envelhecendo, de nunca ter tido sorte com um relacionamento, de querer me sentir desejado, de querer estar com alguém.
Ao mesmo tempo, eu tenho me sentido melhor com o meu corpo por causa da perda de peso (causada pelo transtorno alimentar que veio pelas crises de SII). Querendo ou não, isso me ajuda a me ver melhor no espelho. E aí, como mencionei no texto anterior, fico me perguntando: será que eu devo voltar para os aplicativos? Mas logo me lembro que não é isso o que eu quero. Já foram tantos anos tentando por ali. Até rola um encontro ou outro, já surgiram coisas boas, mas esses aplicativos são uma verdadeira sinuca de bico — ou melhor, um cassino onde a gente fica viciado porque um dia tem recompensa e no outro não, e você fica sempre na espera de que, algum dia, vai vencer. E olha que isso não é nem achismo meu, são estudos psicológicos feitos sobre essas plataformas. Então eu prefiro não voltar pra esse buraco.
Ainda assim, nos últimos dias, caindo na carência, eu voltei a baixar. E me arrependi amargamente. Já deletei tudo de novo, mas sei que em algum momento, na próxima onda de carência, vou acabar instalando de novo, porque eu quero ser visto, quero ser notado, e não tenho onde buscar outra fonte dessa validação no momento.
Para piorar ou complicar o cenário, falta menos de um mês para eu viajar para Amsterdã junto com o boy italiano que conheci em 2024 (por um desses apps). Ele é bem mais novo do que eu, o que me faz pensar que eu já devia ter passado dessa fase de garotos mais novos, que eu já devia estar me relacionando com gente da minha idade. E relacionamento real, não essas pessoas de momentos. Só que eu também não sei por onde começar.
Mas aí vem uma pausa dramática, porque tem coisas estranhas acontecendo que remetem a vários períodos da minha vida.
Talvez eu já tenha dito isso de alguma forma: como o gay que eu sou, crescido em cidade pequena, eu tive uma paixão platônica por muitos anos por um homem hétero. Com o passar do tempo, eu entendi que essa paixão não era de todo o mal como eu pensava. Naquele momento, aquele Gustavo gay de cidade pequena, com medo de ser quem era, se agarrava na esperança de que algo fosse acontecer para poder seguir em frente. Aquele Gustavo se agarrou nesse platonismo. Foi positivo para sobreviver aquele período. Só que o problema é que eu já não sou mais aquele garoto de cidade pequena, mas continuo preso em padrões que me remetem à rejeição. E eu sei que é rejeição porque, no fundo, eu prefiro projetar algo em alguém impossível de conquistar do que em alguém que eu sei que talvez pudesse dar certo. Meu maior medo é que dê certo de verdade e a pessoa acabe descobrindo os meus lados feios: a minha ansiedade, as dores de barriga, as coisas nojentas como o cheiro do banheiro ou a flatulência. Coisas humanas, mas que eu morro de medo que descubram, e com quase 35 anos nas costas eu ainda não aprendi a lidar com isso de forma leve.
Por que eu tô citando tudo isso? Porque recentemente entraram na minha equipe de trabalho dois meninos bem mais jovens. Nenhum dos dois é gay. Pelo menos que eu saiba, e não dão pinta nenhuma, então o que fica são as projeções que eu faço.
E esses dois têm exatamente o padrão de quase todos os caras pelos quais eu me atraio: cabelo escuro e liso, pele branca, nariz mais endireitado, aparência jovial. Tudo aquilo que me ensinaram que era bonito quando eu era criança, enquanto me mostravam que tudo o que eu era, era feio e que eu tinha que ser como eles. Então eu vejo esses dois e me pergunto: será que é um crush ou será que eu apenas queria ser como eles? Será que envelhecer tá me fazendo projetar em quem é mais novo porque sinto que aquilo ali é o que eu perdi, ou o que eu poderia ter sido? Ou ainda: se eu conseguisse alguma coisa com um deles, será que isso me faria ser parte de algo que eu nunca fui? No fundo, já sei a resposta.
Essa semana eu tive sonhos constantes com o N, que é o mais novo dos dois (tem 21 anos). Ele tem um jeito de menino criado em apartamento, filhinho de papai, se veste bem. E tem coisas que eu veria como defeito — eu nunca gostei acne, e ele tem marcas no rosto —, mas eu acho isso bonito nele. O que mais me pega é o cabelo liso, escuro, e o porte de homem. Isso confunde a minha cabeça. Eu tenho certeza absoluta de uma coisa: eu não quero voltar a ser o gay interiorano de 2005 projetando em hétero a solução para o meu vazio. E por isso não quero usar o N como um step para esse momento de carência.
Eu preferiria fazer isso com outro cara gay, onde ao menos haveria alguma chance. Mas nem isso. Teve um menino na academia que eu acho lindo, que é gay, e eu vi ele nos aplicativos essas semanas. Tentei um contato com um perfil sem foto, dizendo que achava ele bonito mas que não mostrava o rosto por medo de ser rejeitado. Ele foi educado, agradeceu o elogio, mas nem respondeu depois disso. E eu também não insisti, porque não faz sentido alimentar algo que não vai a lugar nenhum. Só é bonito quando existe a probabilidade de rejeição.
Ainda assim, é estranho. Acordar sabendo que vou no escritório e vou ver o N — que é meio galã, mas timidez pura — mexe comigo. E eu acabei nem falando do outro, o P.
O P é o outro new joiner. Ele tem 24 anos e é muito fofo, um hétero desconstruído que me dá beijinho no rosto quando se despede, o que eu acho maravilhoso. A gente já sentou para beber, ele fala de videogame comigo, parece não se importar com as amarras tradicionais: lê livros complexos, me dá abraços, hoje mesmo estava deitado tirando um cochilo no sofá da empresa com a inocência de quem não liga pra julgamentos. Ele quebra totalmente aquela minha ideia antiga de que "homem hétero tem que se comportar assim ou assado". Fico feliz de ver que essa nova geração existe e quebra esses padrões.
No fim das contas, eu não gosto dessa sensação de estar olhando para dois caras héteros e para coisas que eu sei que não vou atingir. Eu odeio me sentir rejeitado, por mais que eu mesmo me coloque nesse lugar.
Mas olhando para o todo, falta pouco mais de um mês para a minha viagem com o boy italiano. A melhor coisa que eu faria agora era parar de tentar me aproximar de quem não é acessível e parar de gastar minha energia mental correndo atrás de carência em aplicativo ou implorando atenção implícita de novos colegas de trabalho. Até lá, eu posso focar em deixar a cabeça desacelerar para curtir a viagem de verdade, sem estar esgotado emocionalmente nessa minha rodinha de hamster.
Tudo isso parece meio confuso, mas no fundo eu tô feliz. Porque, de alguma forma, eu tô voltando a sentir outras coisas depois de meses em que o meu único sentimento era o medo e a aflição da próxima dor de barriga. Se essa confusão é o preço de estar vivo e sentindo de novo, que seja. É isso por hoje.