​A medicação, de fato, tem ajudado bastante. Os 30 mg de Citalopram não só diminuíram as crises de ansiedade, como também me deram a vida de volta. Voltei a sair de casa, a ter contato social e a fazer planos. Porém, ainda não consigo deixar de ir ao banheiro várias vezes ao dia como eu pensava que conseguiria. Tampouco desapareceu o medo de uma crise de diarreia acontecer do nada. No entanto, sinto que o processo tem sido gradual: há um mês, eu ainda me desesperava ao entrar no metrô; agora, já sinto que o medo só vem forte às segundas-feiras.
​Devido às crises e ao medo de evacuar tudo o que comia, acabei desenvolvendo um transtorno alimentar e perdi 11 kg no processo. Contudo, venho gradativamente adicionando alimentos ao meu cardápio e tentando ser o mais saudável possível para não recuperar toda a gordura. Por um lado, há muito tempo eu não me sentia tão satisfeito com meu corpo como agora, e até o ódio pela barriga diminuiu. Quero tentar me manter assim.
​Com o fim do excesso de preocupação em saber se vou ter um banheiro por perto, voltam a aparecer preocupações que estavam adormecidas nos últimos meses, como a necessidade de me relacionar com alguém de novo. E, com isso, velhos hábitos retornam: voltei a usar mais as redes sociais que havia abandonado, ainda que em escala muito menor do que antigamente. Voltei a abrir aplicativos de relacionamento e confesso que me sinto um ex-viciado em jogos de azar, mas ainda torcendo para que, nesse "jogo do bicho", o meu número seja sorteado. O medo real, no entanto, é que isso volte a afetar a minha autoestima, que — como citei ao falar da minha barriga — parece florescer quando eu não preciso me importar com a opinião alheia.
​Creio que, por fim, outro velho hábito que ressurgiu foi o de preencher o vazio com consumismo. Comprei um novo celular, gastei uma nota preta e sei que não havia necessidade alguma, além de buscar a sensação de que posso adquirir algo. Mas está bom, né? Eu trabalho para isso. Ainda assim, sinto que deveria ter investido esse dinheiro em uma viagem para o Brasil para ver minha família, algo que tem estado muito presente em meus sonhos.
​Por falar em viagem, ainda não voltei a enfrentar o meu medo de aeroportos. Tive férias em dois momentos durante esses meses e foi estranho não viajar; passei mais de dez dias em casa e sinto que isso não me agregou muito. Por outro lado, sei que, mesmo antes dessas crises ininterruptas deste ano, eu já passava mal toda vez que precisava ir a um aeroporto. Quis evitar o desgaste emocional enquanto ainda me recupero do que nem compreendi direito como aconteceu. De uma forma ou de outra, porém, vou ter que enfrentar um aeroporto em dezembro: tenho uma viagem marcada para Amsterdã, e essa promete fortes emoções, porque irei acompanhado. Vou acreditar que estarei melhor até lá, e essa será a minha verdadeira ressurreição no mês do meu aniversário.
​Por enquanto, vou vivendo um dia após o outro, com meus remédios que me permitem manter a cabeça distante do colapso.