06 September 2026 @ 10:54 pm
Amanhã, nesse mesmo horário, ela já terá voltado de outro país.
Eu penso no céu de segunda-feira; Me pergunto o tom de azul - ou cinza - que ele tomará na fronteira no dia de amanhã. Minha imaginação se fixa nos pequenos detalhes. Imagino as estradas, as árvores, os raios de sol refletidos em um carro cujo modelo desconheço.
Penso nas comidas, lembranças e pessoas.
Penso doentiamente. Mas de forma leve, despreocupada, e juro, inocente.
Não penso sobre o meu dia. Ele muito provavelmente será mais ou menos igual a todos os outros.
Então volto os pensamentos para as possibilidades do dia dela, que parece mais brilhante, mais promissor, mais gentil que o meu.
Ela não pensa em mim agora. É tarde. E é provável que também não pense amanhã. Afinal, na frente de seus olhos, há uma estrada, língua e uma natureza de intensa distração. E sempre foi preciso poucas dessas irreflexões para que minha voz se perdesse pelo caminho até sua escuta. Estranhamente, eu me apago em sua presença, que tanto espero. Eu entendo agora que espero demais. Nem ela, nem ninguém nunca entendeu por que eu sinto em tal escala, e o quão importante é para mim que me seja permitido chorar a cada dois dias e agir um pouco romanesca em meio a banalidade da minha existência fraca.
Mas eu espero demais de você, espero um afeto que nem sei receber. Me surpreendo quando recebo um terço daquilo que fantasio.
Existe coisa mais prisioneira - no bom (será mesmo?) sentido - que os braços de uma pessoa amada? Não há. O amor sempre vence. Me chama para lutar. Eu recuso uma e outra vez. Eu desvio, e ele me soca o estômago, me devora, como um verme. Não reconhece o pulsar do meu coração, não computa os sinais vitais, não vê por trás do fantasma encarnado.
Vinte e dois anos, e ainda me sinto errada. Eles confirmam de novo. E tudo parece distante e sem significado muitas vezes.
Você costumava dar significado para as coisas da minha vida. Mas a imagem começa a rachar, e os momentos - curtos demais; abafados pelo som de outras vozes - me deixam olhando para o teto e me pergunto ao fim do dia:
"Foi isso?" "Uma risada, um calor, uma única conversa, foi pelo que agonizei todos esses setes dias inteiros?"
Todas essas coisas me fazem sentir uma pequena piada no fundo de uma sala de teatro empoeirada.
Eu não quero esperar mais nada de você, porque sei que é desnecessário, mas ainda penso no seu dia em uma cidade do Uruguai. Ainda penso inutilmente no dia que não viverei, apenas imaginarei, e que mesmo com os pés naquele solo, mesmo que pudesse estar lá, me sentiria, tenho certeza, miserável.
Você não falaria comigo. Sequer olharia para a minha direção.
Eu observaria o céu lindo e pálido e lamentaria não conseguir me alegrar de baixo de tanta gigante beleza.
Meu coração falharia como acontece toda vez nos dias ensolarados, e eu viraria um rastro de fumaça dentro da minha cabeça.
Nada teria sentido. Uma armadilha de novo.
E apesar do sal que insiste em encharcar meu rosto, eu espero que ela tenha uma tranquila e amável viagem e que o feriado solitário se encerre finalmente.