08 May 2026 @ 12:28 pm
Love me like I'm not made of stone  

É impressionante como é difícil desaprender padrões que carregamos por mais de 30 anos. São coisas que a gente absorve ao longo da vida e que, mesmo quando despertamos e tomamos consciência do que já não deveria estar aqui, a mente insiste em repetir. Tudo o que me foi ensinado, o certo e o errado, o que formou minha índole e moldou meu caráter... tudo isso construiu o muro onde me protejo. Muita coisa já não faz sentido hoje, mas para a minha cabeça, que foi treinada assim, a mudança é um processo lento e árduo.

Eu queria muito me permitir mais. Me permitir gastar sem o medo constante de que algo vai dar errado a qualquer segundo. Me permitir investir, tentar algo novo mesmo que a resposta seja um "não", ou até me sentir rejeitado sem que isso fosse o fim do mundo. Mas ainda não consigo. Sinto que dou um passo à frente e dois para trás. Minha mente ainda está obcecada por estabilidade; se algo está estável, deve continuar assim. Por isso, estou há mais de um ano evitando me relacionar, esperando o momento em que eu me sinta pronto para investir emocionalmente em alguém. No fundo, sei que dificilmente darei o primeiro passo, porque o risco de um fora destruiria meu castelo de areia. Não que eu seja o mesmo Gustavo de um ano atrás; eu me sinto muito mais forte agora, mas sinto que não quero mais esse esforço. Prefiro ser escolhido. Que venham até mim e me poupem da dor e do desgaste.

Nas últimas semanas, o cansaço bateu forte. Nesta em particular, ando meio para baixo, e com razão. Tenho me policiado demais e por muito tempo. Sigo controlando cada gasto em busca da meta de morar sozinho ou de construir aquela segurança financeira que ninguém nunca pôde me dar. Sigo malhando, correndo, subindo escadas, cuidando da pele... É uma guerra constante contra a minha própria aparência e a busca por uma versão melhor de mim mesmo. Ao mesmo tempo, venho reduzindo o vício em dopamina rápida — redes sociais e aplicativos de encontro —, e essa limitação acaba me fechando para o mundo. Se por um lado agora eu tenho o controle de quase tudo, por outro, sinto falta daquela reação química, da surpresa e da adrenalina que essas situações me traziam.

Isso me traz memórias da época na Irlanda e do porquê aquele tempo foi tão vital. Tudo era novo. Cada dia, cada interação e cada olhar tinham um gosto diferente. Eu era ingênuo, desbravando um país novo com uma cultura totalmente distinta, e tinha fome de aceitação, de fazer parte de algo. Eu sentia que qualquer coisa podia acontecer a qualquer momento, e talvez por isso eu quisesse tanto ter sobrevivido lá. Algumas pessoas e momentos daquele período ficaram marcados de forma profunda. Hoje, com a vida mais resolvida e com muito mais bagagem, não sinto mais esse êxtase em situações arriscadas, nem motivação para me desdobrar, mesmo exausto, atrás de alguém. Mas sinto muita saudade do que o Gustavo de 2019 sentia.

Eu achava que me descondicionar e alcançar estabilidade me deixaria mais leve, mas ainda não encontrei esse caminho. Por enquanto, sigo me organizando com um gosto agridoce na boca. Consigo olhar para as coisas ruins que passei e integrá-las com carinho, mas ainda não aprendi a me libertar para viver o prazer sem o peso da culpa. Talvez seja por isso que esta semana tenha doído tanto. Mas vai passar. Sempre passa.

 
 
mood: tired